Por que você deveria programar com IA em 2026
Uma história em três atos.
Que a IA introduziu um novo paradigma de programação – para o bem ou para o mal – é algo indiscutível. Mas se em 2025 era escusado demonstrar certo ceticismo em relação aos seus benefícios, nesse ano que se inicia parece não haver mais espaço para isso. Cada vez mais a IA vai ganhando os corações dos non-believers, de modo que os riscos de ficar de fora dessa dança estão se tornando cada vez maiores.
Esse artigo dirige-se tanto aos céticos de IA (que dentre minha audiência julgo serem pouquíssimos), quanto àqueles que, como eu, demonstram interesse e usam essa ferramenta no seu dia a dia. Pois se por um lado isolar-se da IA tem se tornado perigosamente contraproducente, por outro é legítimo que questionemos se nossa vida enquanto programadores tem realmente melhorado.
Primeiro argumento: experiência pessoal
Começo essa exposição pelo argumento mais fraco: minha experiência anedótica. Já mencionei algumas vezes que trabalho como VP of Engineering em uma empresa americana 100% remota (tendo sido, anteriormente, Engineering Manager). Isso significa que parte do meu trabalho é gerenciar o time de engenharia, incluindo contratações.
Antes da popularização da IA, uma forma comum de contratar era, após um screening inicial, pedir que o candidato implementasse um projeto. A ideia era dar um problema incompatível com o tempo disponibilizado, de modo que pudéssemos julgar não somente o código, mas também o processo de tomada de decisão do candidato: o que ele priorizou, o que faria se tivesse mais tempo, como ele navegou numa codebase existente, etc.
Acontece que hoje em dia esse trabalho tornou-se trivial para a IA – um projeto de escopo reduzido e instruções claras é exatamente onde ela performa melhor. Portanto, é inútil julgar o candidato em algo que ele pode resolver com um prompt.
Seria isso um problema? Ora, nós esperamos que o programador utilize IA no seu dia, então como posso proibi-lo de utilizar IA no projeto? Não faria o mínimo sentido! Portanto decidimos por abraçar a IA de uma vez por todas, de modo que faz parte do processo de screening perguntar como o candidato utiliza IA. Nesse sentido, a utilização da IA passou a ser eliminatória.
Assim, parte do meu trabalho também é fomentar o uso de IA internamente: treinar o time, mostrar como o desenvolvimento pode ser acelerado, compartilhar novidades, técnicas, etc. Novamente de forma anedótica, tenho recebido muitos convites para treinar e palestrar sobre IA para desenvolvedores. Ou seja, há uma expectativa cada vez maior de que a IA seja utilizada dentro de uma empresa.
Segundo argumento: percepção dos executivos
Essa impressão não é só minha. James Stanier, da publicação The Engineering Manager, hoje CTO da empresa de capital aberto Nordhealth e antes executivo do Shopify, já havia alertado sobre isso:

Se em Junho de 2025 dizer que céticos de IA provavelmente deveriam ser considerados underperformers soava chocante, hoje em dia essa noção está cada vez mais arraigada. Pouco depois tivemos a notícia do CEO da Coinbase demitindo funcionários que se recusaram a utilizar IA, o que, embora extremo, demonstre o sentimento das empresas de tecnologia focadas em inovação. Em abril do ano passado já havia repercutido um memorando interno do CEO do Shopify que estabelecia que o uso de IA era esperado na empresa, e sua não-adoção precisaria ser justificada.
É bem verdade que utilizar argumentos de CEOs para justificar o uso da IA pode ser visto com descrédito, uma vez que o poder deflacionário da tecnologia (em outras palavras, corte de custos), soa-lhes extremamente apetitoso. Mas recentemente o sentimento mudou mesmo entre pessoas conhecidas por pregarem cautela quanto à adoção irrestrita da IA.
Terceiro argumento: percepção dos formadores de opinião
Considere o que o lendário David Heinemeier Hansson (aka DHH e inspiração do artigo Be passionate), disse em 3 de Janeiro desse ano:
O criador de Ruby on Rails foi categórico em dizer “Opus, Gemini 3, and MiniMax M2.1 are the first models I've thrown at major code bases like Rails and Basecamp where I've been genuinely impressed.”, o que pegou muita gente de surpresa considerando a forma cautelosa com a qual ele havia falado alguns meses atrás sobre a adoção de IA no podcast do Lex Friedman, inclusive chegando a dizer que vibe coding “emburrecia".
Também viralizou no fim de 2025 uma espécie de desabafo de Jaana Dogan, Principal Engineer no Google, onde ela relata que um problema que se arrastava por 1 ano na empresa foi resolvido em 1 hora com o Claude Code (ironicamente ela não mencionou o Gemini…).
Muitos argumentaram que o problema nesse caso não era necessariamente o código, mas sim a complexidade interna do Google – a própria burocracia que impedia o projeto de progredir. A isso respondo que é verdade, o que portanto corrobora quando digo extensivamente nesse espaço e também no YouTube: o gargalo não é mais o código, mas sim a abstração, o projeto, as dependências e a execução.
Também preciso mencionar o desabafo ainda mais contundente do bom e velho Andrej Karpathy, figurinha carimbada nos meus textos, onde ele admite “nunca ter se sentido tão para trás como um programador”. Ele argumenta que a profissão foi completamente “refatorada” e termina com uma exortação: “Roll up your sleeves to not fall behind.”
Curiosamente, poucas semanas antes o próprio Karparthy disse em um podcast que muito do que se falava de agentes de IA era “slop” e que os modelos ainda “não haviam chegado lá” (ele se explicou recentemente).
E por fim, o último exemplo que menciono é do founder do Sentry, que basicamente implorou aos funcionários que utilizassem IA, inclusive dando dicas de como ele mesmo havia criado uma ferramenta interna vibe code-style (mais uma razão pela qual precisamos levar o vibe coding a sério).
Conclusão
Vejam portanto a evolução da narrativa: primeiro o hype nasceu com aqueles que tinham interesse em venderem produtos de IA: OpenAI, Anthropic, Google, NVIDIA, etc (inclusive argumentei que precisamos dar o braço a torcer ao CEO da Anthropic, que ainda em Março de 2025 cravava que a IA escreveria 90% do código em 6 meses).
Depois o “vírus da IA” atingiu os CEOs, também beneficiados pelo potencial de corte de custos prometido por uma adoção em massa. Alguns CEOs, como o da Coinbase, cientes de que conseguem repor rapidamente seu time de engenheiros, puderam se dar ao luxo de simplesmente demitir aqueles que hesitavam em adotar a IA.
Mas eis que a última onda parece ter atingido os próprios programadores, aqueles que simplesmente gostam de tecnologia e de criar seus próprios produtos. E por que isso seria relevante? Bem, pois esses são os verdadeiros influenciadores, ditam comportamentos e balizam opiniões. São vistos como moderados, e suas bençãos como que libertam aqueles que imploram para adotar a IA no seu trabalho.
Portanto, escolha o argumento que ressoa melhor com você. Seja minha experiência pessoal como manager, as medidas incisivas dos CEOs, ou a “permissão” de programadores reputados, o que não faltam são razões para você programar com IA em 2026.




Parei de ler quando disse que usava uma forma de avaliar candidatos que era dar mais coisas pra fazer do que tempo. Que atitude deplorável. Unfollow.