O que você vai escolher construir?
O que muda quando desenvolver ficou rápido até demais.
Retorno à escrita depois de um tempo afastado e por uma boa razão, ou pelo menos assim me parece. Os desenvolvimentos no mundo da IA e suas óbvias implicações para os programadores têm se tornado acachapantes, overwhelming até, de modo que entre lançamentos, tempo dedicado a colocar os modelos à prova e uma sensação angustiante de que cada minuto com um agente ocioso é um minuto desperdiçado, pouco tempo e ânimo me restaram para sentar e escrever.
Escrevo em formato de prosa, à moda de um diário, de forma consciente e por uma razão que espero esclarecer em breve. Antes disso, permita-me recordar o que mudou nas últimas semanas. Já vim aqui nesse espaço apresentar minha tese de que as razões para não se programar com IA têm se tornado cada vez mais exíguas. Os modelos seguem melhorando, ainda que à primeira vista tudo pareça vulgar e incremental. Portanto, seguimos acumulando razões para tirar projetos do papel, e eu mesmo aproveitei o feriado de Carnaval para riscar alguns itens da minha lista. Mas existe um componente novo agora: o paralelismo.
Recentemente, a OpenAI lançou o app desktop do Codex, um software que se posiciona entre a IDE e a CLI e, devo admitir, assumiu o posto de ferramenta favorita em meu workflow (não leve isso tão a sério, a rotatividade ali é alta). O que me atrai particularmente é a facilidade de disparar múltiplas tarefas em múltiplos projetos, o que, combinado com destemor de prover full access ao agente, possibilita uma orquestração autônoma e tarefas que perduram por 30, 60, 90 minutos sem interrupção.
Não foram apenas os competentes desenvolvedores do Codex que buscaram o multitasking. Seus nêmesis da Anthropic, junto ao lançamento do Opus 4.6, introduziram o conceito do Agent Teams, uma forma nativa de coordenar instâncias do Claude Code em paralelo dentro de uma mesma sessão. Tive bastante sucesso em usar essa abordagem, tanto para acelerar o desenvolvimento, quanto para planejar novas funcionalidades.
Por fim, a explosão do OpenClaw, nascida Clawdbot, e agora digníssimo membro da House OpenAI, levou os agentes de IA para nossos WhatsApps, Telegrams, Slacks e Discords. Heck, eu mesmo agora faço a Peggy (minha atarefada assistente pessoal) avisar minha esposa quando estou livre para o almoço!
E como se o FOMO não fosse grande o bastante, o Peter Steinberger, criador do OpenClaw, pode ter fundado a primeira one-person billion-dollar company, numa suspeita profecia autorrealizável do Sam Altman.
E se até o momento essas linhas carregam uma mistura de excitação e desabafo, é porque o são. Num mundo onde tudo parece possível, o que fazer? Quando a única barreira são seus tokens, como usá-los? Se uma pessoa pode se tornar bilionária promptando incansavelmente, por que não eu?
Nunca me senti particularmente propenso à ansiedade, mas se pretendo ser honesto nessas linhas, às portas da quaresma, preciso dizer: múltiplas são as vezes em que me proponho dormir forçosamente, a mente em outra rotação. Ou quantas vezes não precisei lutar contra o ímpeto de escapar furtivamente para o escritório, nos intervalos das refeições, antes de tomar banho, prestes a sair de casa, na esperança febril de que retornaria à minha estação para uma nova feature, uma nova ideia, o post-mortem de um bug.
Mas, obviamente, isso está errado, não é saudável e não se sustenta. Pois, quando tudo é possível, o diferencial não é mais técnico, mas sim a execução e a distribuição. Em vez de pular de galho em galho, atrás do side project que esgueirou-se na frente dos outros, vencerá aquele que redirecionar suas forças para a execução, pesquisa, acompanhamento, marketing, taste, distribuição. Apenas a técnica, a tecnologia, não será suficiente numa época em que basta ter seu app em produção para torná-lo passível de ser desconstruído e replicado.
Talvez você tenha erguido a sobrancelha à menção da palavra “taste”, que parece desenquadrada das outras, mais comuns aqueles acostumados a viver de software. Esse é um componente novo, não para os artistas, mas para os tecnicistas; aos acostumados a priorizar o funcional em detrimento da forma, a resultado e não a experiência, a eficiência em vez da estética.
Eis aí aquilo que precisaremos aprender, o eterno calcanhar de Aquiles da inteligência artificial – a irrevogável realidade de que ela não é humana. Por isso me aproximo dessas linhas não como um engenheiro de software, mas como um escritor. Transmito aqui emoções humanas para não perder minha identidade e convidá-lo a reconhecer a diferença entre um interlocutor real e um companheiro artificial.
Esse texto começou com uma intenção e terminou com outra. Melhor assim. Provavelmente exprimi aqui aquilo que gostaria, não o que deveria. Ainda assim, talvez tenha sido minha mensagem mais importante: que nessa nova era onde nossos projetos se tornam realidade, não esqueçamos que todo sucesso é dependente do humano por trás dele.





Que bom que você escreveu. Eu poderia dizer que essa ansiedade é algo novo na vida dos desenvolvedores. Mas pelo que notei eu sou mais velho.
Permita-me dizer: Também foi assim quando surgiu o Windows. Também foi assim quando Java virou mainstream. Também foi assim na guerra dos browsers. Também foi assim na bolha da internet 1.0. Também foi assim quando surgiram os smartphones. Também foi assim quando fomos inundados por frameworks front-end. Também foi assim quando os serviços de nuvem se expandiram. Também foi assim tantas e tantas outras vezes.
O futuro não é igual ao passado, amigo. Mas a ansiedade está é em você. Nossa área é repleta de fatores ansiolíticos e por isso é muito importante ter guardrails e safeguards pessoais para isto. Então te sugiro que interrompas tais ambições desordenadas e dirija-se a um novo caminho, onde busque a verdadeira serenidade com sabedoria.
Somente você pode tomar ações que lhe mantenham com estabilidade e paz sobre o que realmente importa na sua vida, que tenho certeza que são coisas outras.