O app que a IA tornou indispensável
Como o Obsidian se tornou o melhor aliado de quem trabalha com agentes de IA
Raramente vi uma confluência de forças tão favoráveis a um app ou produto como a que embala o Obsidian nesse momento. Com a explosão dos agentes generalistas – potencializada pelo OpenClaw – e a consolidação dos LLMs como a principal interface de trabalho não só para programadores, esse simples mas poderoso editor de texto baseado em markdown explodiu em popularidade. Mas o enxuto time por trás do Obsidian não se contentou com sua boa fortuna e foi certeiro ao lançar recentemente sua CLI e o Headless Sync, tornando o app ainda mais atrativo para aqueles que trabalham com agentes de IA.
No artigo de hoje eu gostaria de responder a pergunta: por que todos os entusiastas de IA deveriam utilizar o Obsidian?
Antes de tudo, precisamos entender o que é o Obsidian e o que o torna tão especial. Ao olhar desatento, ele pode parecer um simples note-taking app, o que de fato ele é. Porém, sua força se sustenta em dois pilares principais: internal linking e portabilidade.
Internal linking é a capacidade do Obsidian de conectar notas umas às outras. Por exemplo, à medida que escrevo esse texto (no próprio Obsidian, é claro), posso linkar essa nota a outras relevantes. Por sua vez, essas notas relacionadas se conectam a outras, de modo que as ideias se concatenam. Esse padrão é muito similar ao que nosso cérebro utiliza, onde ideias e imagens ligam-se umas às outras, resgatando significados e favorecendo o aprendizado. São Tomás de Aquino ensina-nos que para recordar um fato, devemos retomar suas dependências, e o Obsidian permite justamente isso.
Ainda que esse método de conexão entre as ideias seja incrível, seu uso precede e muito o Obsidian. De fato, em How to Take Smart Notes, Sönke Ahrens descreve o método Zettelkasten (ou slip-box), justamente o que utilizo no meu dia a dia, muito antes da popularização do computador pessoal para registro de notas. A principal sacada, portanto, foi aliar o internal linking com um formato agnóstico, independente e durável como o markdown.
Está na missão do Obsidian que seus arquivos sejam privados e locais – ou seja, seus. Essa mentalidade o diferencia de outros apps relacionados como Notion, Evernote, Google Keep, Apple Notes, etc. Ainda que com o tempo muitos desses tenham evoluído para um padrão similar, nenhum nasceu com a proposta de construir seu castelo sobre um formato que permite ao usuário ejetar-se a qualquer momento, sem fricção. Mas como acontece com muitas coisas na vida, o que parecia loucura ou suicídio tornou-se justamente o maior trunfo do Obsidian, pois o markdown se tornou a lingua franca dos agentes de IA.
Por ser um formato facilmente manipulável e comum de ser encontrado em repositórios de código dada sua capacidade de versionamento, foi natural que agentes como Claude Code recomendassem que suas instruções fossem escritas num arquivo markdown (hoje convencionado AGENTS.md). Calhou também que o advento das skills, que permite que o agente “aprenda” uma tarefa especializada, economizando contexto e aumentando a assertividade, não passasse de um conjunto de arquivos markdown.
Não só isso: à medida que os agentes foram se tornando mais inteligentes e capazes de tarefas mais longas, trabalhando incansavelmente por horas (ou até que durem seus tokens), surgiu a necessidade de um gerenciador de estado, um documento que pudesse ser utilizado para listar o que devia ser feito e por quê, e o que já havia sido feito e como. Isso evoluiu para o chamado spec driven development, e sim, você já adivinhou: nada melhor que um arquivo markdown para controlá-lo.
Por essas e outras não é de se admirar que um app que há anos vem otimizando a forma de trabalharmos com markdown tenha despontado como um dos grandes vencedores da era da IA. E as atualizações recentes deram ainda mais poder para os agentes, resolvendo dois problemas cruciais que sempre me incomodaram: a recuperação (retrieval) de uma nota e como arquivá-la de forma conveniente preservando os links que são o diferencial de um second brain.
É justamente essa inter-conectividade de notas que permite que o Obsidian gere um grafo extremamente interessante de todo o seu vault. A imagem abaixo é o meu grafo atual (excluindo daily notes), onde cada ponto representa uma nota.
Isso é absolutamente incrível, pois permite criar conexões entre áreas de conhecimento que estariam naturalmente segregadas. Ora, nesse mesmo artigo acabei de conectar OpenClaw a São Tomás de Aquino!
Mas embora revelar essas relações ocultas seja parte do objetivo, muitas vezes queremos apenas recuperar alguma nota, frase ou ideia. E à medida que seu vault cresce, mais difícil se torna essa tarefa. Portanto, foi de bom grado que recebi a notícia do lançamento da CLI, que incorpora uma extensa lista de comandos, AI-friendly, que podem ser utilizados para manipular as notas e realizar buscas de forma mais eficiente (ou seja, economizando tokens).
Por exemplo, alguns parágrafos acima citei o método de São Tomás para relembrar algo. Eu sabia que já tinha escrito sobre isso, mas não exatamente o nome da nota, ou como reencontrá-la no meio de dois mil arquivos. Ora, com a CLI isso se tornou trivial, pois o comando obsidian search possibilidade justamente essa busca temática:
Ironicamente, eu havia esquecido o conselho do Doutor Angélico para relembrar algo – e terminei recuperando o conteúdo precisamente com o seu método, ou seja, retomando a dependência original (o fato que estava no Obsidian). Em seguida bastou deixar o LLM rastrear o arquivo correto.
O segundo grande problema que costumava ter era arquivar um conhecimento, ideia ou pensamento, de forma eficiente. Isso pois infelizmente não controlamos quando nos vem a inspiração, ou um fato que desejamos recordar. Confesso já ter testado diversas alternativas para esse fato: escrever num papel, manter uma nota rascunho no próprio Obsidian, jogar num grupo particular no WhatsApp, etc. Pior, queremos que essa ideia seja conectada a outras, o que aumenta a fricção de se registrar um pensamento fugidio.
Eis que ferramentas como o OpenClaw se propõe a fazer exatamente o papel de assistente pessoal – com a vantagem de serem proficientes em markdown. Portanto, o que antes era feito nas chamadas fleeting notes (na nomenclatura proposta em How to Take Smart Notes), hoje pode ser delegado diretamente para um assistente de IA, disponível 24/7, e capaz de arquivar a ideia e conectá-la com outras relevantes.
Esse caso de uso é tão poderoso que o famoso escritor francês Michel de Montaigne admoestava-se por não ter seguido o hábito de seu pai de anotar em um diário fatos que tivessem utilidade para a família. Mas se naquela época tal tarefa era delegada a secretários, o que restringia sua aplicação aos afortunados e aristocratas, hoje basta um OpenClaw conectado numa VPS, acessível via WhatsApp, e valendo-se do Obsidian headless sync para persistir e sincronizar todas as notas em um único lugar, ainda que acessíveis por múltiplos clientes.
Por fim, se a IA tem acelerado o desenvolvimento e permitido que trabalhemos em múltiplos projetos ao mesmo tempo, demandando inclusive que sejamos criteriosos com o que vamos escolher construir, é necessário uma memória central, algo que vá além de uma mera documentação, um lugar para armazenarmos nossas ideias, visões, objetivos, preferências, desafios, falhas, etc. Tudo isso se torna substrato para florescer novos projetos que possam ser executados pela IA, sem remover-nos completamente da equação, mas pelo contrário, colocando-nos na posição central daquele que pensa. E nesse cenário o Obsidian emerge vencedor como o app que permite e potencializa essa extensão digital de nosso próprio eu.
Mas uma nota de atenção: se pode fazer sentido delegarmos a escrita do código para um LLM, devemos ter muito cuidado ao delegar a escrita de nossos pensamentos para a IA. Isso pois a fricção de se colocar no papel (ou na tela) aquilo que vive apenas na nossa cabeça faz parte do processo de entendimento e aprendizado. Pessoalmente, tento manter tudo que não seja factual fora do domínio dos agentes. Se escrever o próprio código perdeu utilidade, escrever os próprios pensamentos continua a ser imprescindível. Em certo sentido, a IA é o anti-Zettelkasten.
Portanto, se você quer trabalhar com agentes de IA, se tornou mais importante do que nunca ser original. Se você quer desenvolver taste, precisa entender um pouco melhor o mundo. Precisa refletir sobre o que deu certo e o que deu errado, o que você gosta e o que você detesta. Esse processo é lento, contínuo, mas humano. Seus aprendizados precisam estar ao alcance da IA para que possamos nos servir de seu poder computacional e de sua “inteligência”. E se queremos fazer com que tais aprendizados sejam duráveis e portáteis, independentes de modelos e provedores, bem, nesse caso você deveria utilizar o Obsidian.





A parte de não delegar escritos sobre questões humanas à IA foi o ponto alto deste artigo para mim.
Baixei o Obsidian em 2023, comecei usar mas tenho dificuldade em fazer as conexões.
Quem sabe agora consigo tirar proveito desta ferramenta.
Um grande abraço.